Natalie Witte: O seu investidor é realmente um anjo?


Já trabalhei para centenas de startups e dezenas de investidores. Confesso que ao longo do tempo vi praticamente todos os perfis possíveis de relação investidor-empreendedor.

O tipo que eu mais gosto e recomendo é aquele que se assemelha à simbiose: investidor e empreendedor atuam de uma forma tão integrada que fica claro que o sucesso de um está direta e obrigatoriamente atrelado ao do outro. Nesse modelo de relação, o investidor se porta verdadeiramente como um anjo, colocando o interesse da empresa sempre em primeiro lugar, inclusive quando as coisas não saem exatamente como se esperava.

São dois os momentos em que as diferenças entre os perfis de investidor se acentuam: na hora de estabelecer as condições para o investimento e quando a empresa começa a dar sinais de que vai ter dificuldades em seguir adiante.

Se pensarmos numa start-up como um bebê ou uma criança, o investidor realmente anjo atua como um ponto de apoio incondicional, um facilitador. Ele é um investidor, sim, e tem obviamente um objetivo de retorno financeiro. A questão é que esse retorno não é mais importante para o investidor do que o crescimento da empresa. Um vem a reboque do outro.

Vou citar um exemplo de um investidor que eu considero muito, mas muito anjo. Ao entrar com um investimento em uma start-up no regime de mútuo conversível (veja o texto sobre Mútuos Conversíveis aqui), ficou definido que a sua conversão seria automática a partir de um determinado patamar de evolução da empresa. Isso significa que a partir de um momento previamente definido, ele se tornaria automaticamente sócio da empresa. Mas e se a empresa tivesse seguido por um caminho que não tivesse mais a ver com ele? E se ele não quisesse mais se tornar sócio da empresa? Um investidor comum sairia, pedindo seu dinheiro de volta (mas isso é coisa de banco ou de investimento de alto risco?). Esse investidor anjo, consciente, parceiro, simplesmente deixou consignado que se ele viesse a tomar a decisão de não seguir como sócio, abriria mão da sua participação na empresa. "Entendo que, se apertar demais o empreendedor, vou sufocá-lo. Quero que ele venha conversar comigo antes de tomar qualquer decisão importante. Não apenas como investidor mas como alguém que quer o seu bem e que tem mais experiência. Uma pessoa que pode ser dura, cobrar, falar coisas desagradáveis, mas que sempre estará pensando no melhor para a empresa", disse ele, quando debatemos o tema 'Investidor anjo'. Obviamente não vou discutir que ele é de fato o ponto fora da curva com relação ao que exigir (ou não) de direitos quando se investe em start-ups, mas tenho outros com a mesma filosofia.

Mas também existem investidores que funcionam no modelo "farinha pouca, meu pirão primeiro":

(1) estabelecem regras que asseguram o retorno do seu investimento, independentemente do êxito da empresa (até me assusto com algumas coisas que vejo o pessoal exigir de contrapartida, o que não é saudável no curto ou no longo prazo);

(2) colocam travas e fazem o empreendedor pedir "benção" para qualquer passo que queira dar (matando o espirito aventureiro e corajoso do empreendedor, explico mais nesse texto);

(3) apoiam o empreendedor apenas enquanto tudo vai bem; e

(4) abandonam o barco ao primeiro sinal de dificuldade, pressionando para ter o dinheiro de volta (mesmo que o empreendedor tenha que fazer um empréstimo pessoal...).

Agora pergunto: é esse tipo de investidor "anjo" que você de fato precisa? Não tem outra forma de financiar a sua start-up?

Por isso, defendo sempre o equilíbrio. Relações desalinhadas, que dão muito mais peso ao interesse de um dos lados - seja qual for -, tendem a produzir resultados que podem até ser positivos numa perspectiva imediatista mas que não se sustentarão no longo prazo, principalmente naqueles momentos difíceis em que o envolvimento de todos será fundamental para a sobrevivência da empresa.

Da mesma forma que conheci muitos investidores realmente anjo como o do exemplo acima, vi outros que impõem condições que tornam o empreendedor um empregado - por um dinheiro que não vai ser suficiente para resolver a vida da empresa e do empreendedor, adquirem controle total e irrestrito e definem as regras de um jogo desigual, que atende apenas (ou prioritariamente) aos seus interesses. Lembrando que a pessoa não precisa ter 70% ou 50+1 da empresa para ter o controle, bastam só uns “vetos” ou “votos afirmativos” para produzir o mesmo efeito devastador (leia novamente o item 2 acima).

Costumo dizer que se um empreendedor aceita condições muito ruins, ele está mal instruído, é um empreendedor imaturo ou está com a corda no pescoço. Se eu fosse o investidor, fugiria dessa relação, qualquer que fosse a justificativa da aceitação. Oriento empreendedores a sempre entrar em uma rodada de investimento com um colchão financeiro - "não se pode sentar à mesa desesperado de fome". Isso pode evitar a tomada de decisões erradas, precipitadas…

Para saber se o seu investidor é verdadeiramente um anjo, faça uma pesquisa sobre ele; converse com empresas nas quais ele investiu; veja qual é a sua reputação no mercado. Além disso, procure entender se ele está simplesmente disposto a entrar com dinheiro ou se tem experiência, conhecimento e networking para compartilhar com você. Lembre-se sempre que um investidor pode levar a sua empresa para o céu ou para as profundezas do inferno. Se cuide!

Espera aí! Antes de sair, recomendo a leitura de uma reportagem muito interessante da Folha de São Paulo que aponta para um novo comportamento das start-ups no sentido de rejeitar investidores que queiram impor um modelo de crescimento acelerado, nem sempre sustentável.

CLIQUE AQUI PARA LER O ARTIGO DA FOLHA

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